"Instrui o sábio, e ele se fará mais sábio; ensina o justo, e ele crescerá em ciência" (Provérbios 9:9).
A cada dia, todavia, essa missão parece mais desafiadora, e exige daquele que se propôs a construir o futuro, a lapidar os sonhos e fazer progredir a sociedade uma postura alinhada com novas tecnologias, sem descurar um segundo da missão humana, profundamente humana, da docência.
A formação de todos os níveis deve ir além do intelecto. Há um dever ético de todos os formadores, não só de afiar as mentes e a técnica, mas de moldar espíritos e corações, dirigindo-os à execução do conhecimento com excelência, entrega e responsabilidade.
Nesta senda, uma interessante perspectiva sobre a docência é a do eco perpétuo de nossas ações. Ensinamos e construímos, plantamos sementes cujos frutos muitas vezes não estaremos aqui para colher e nem mesmo para observar. Nossos nomes serão cobertos pelo esquecimento humano, mas lá, no consciente e no subconsciente dos que receberam a instrução por nossas palavras e escritos, continuaremos a falar, em um fluxo contínuo, intergeracional e por tempos imemoriais. A Educação é a esperança da humanidade.
Ademais, observa-se ainda que a educação é um poder-dever. É possível ensinar, e quando se têm os predicados necessários e o gosto pela transmissão do conhecimento, isso se constitui também como um dever cívico, social e ético.
Como dito, não são poucos os desafios da docência contemporânea. Notadamente no Brasil, temos baixos salários, falta de reconhecimento social e, talvez o mais grave, um desprestígio permanente do Magistério.
Uma certa reabilitação mística é oportuna e necessária. A função de ensinar deveria receber da sociedade, do Estado e das instituições o tratamento quase sacramental que recebe em outros países mais desenvolvidos. Porque ensinar é isso mesmo: uma função sagrada. No Japão, quando o professor entra, todos os alunos se levantam, e a ele é atribuído o título de sensei, assim como a médicos e advogados.
Não há possibilidade de desenvolvimento social e de crescimento de renda sem alfabetização real e sem o conhecimento básico da matemática.
E não há possibilidade de desenvolvimento humano, de se criar um ecossistema de subjetividade, sem a literatura. Hoje, de certo modo, vivemos o sonho dos Iluministas: bibliotecas infinitas ao alcance de todos, vinte e quatro horas por dia. Infelizmente, lemos menos, resumimos mais, refletimos poucas vezes.
A Educação de todos os níveis deve resgatar o espírito dos aprendizes dessa enxurrada de informações descontextualizadas, de consumo rápido e polarizado, que, via de regra, repete mantras vazios como verdades universais. Longe dos extremos, das verdades absolutas e nas sutilezas é que mora o conhecimento.
Mas, para que se possa retirar a trave do olho do outro, primeiro é preciso retirar do próprio. Nós, mestres, temos o dever de fazer um extenso saneamento do conteúdo que consumimos. Essa curadoria é fundamental, e a saúde intelectual depende muito disso.
Outro ponto que merece atenção é a integração da educação com as modernas ferramentas de inteligência artificial, que devem sempre potencializar a aprendizagem, jamais inviabilizá-la. Escrever bem não pode ser um talento em extinção, sob pena de sermos as últimas gerações capazes da imortalização por meio da escrita.
Aí entra a importância do livro físico, que oferece um momento de desconexão, serve como prova tátil da busca pelo desenvolvimento interior e exterior, um adereço que, ao ser visto nas estantes, lembrará que foi a transmissão do conhecimento e a reflexão que nos permitiram viver em sociedade e ter expectativa de progresso. Sim, progresso. Essa palavra polissêmica, muitas vezes tomada apenas em seu sentido material.
Precisamos de progresso em todos os sentidos, e não apenas no financeiro. Progresso de vida, de tempo de qualidade, de interiorização, progresso espiritual, imaterial, progresso como Humanidade.
Bons professores podem indicar e pavimentar os caminhos desse progresso, mas não podem trilhá-lo sem a sociedade, as instituições e um amadurecimento da consciência coletiva, que os coloque novamente na posição de destaque que merecem.
Meverick Santos Voigt é Professor Universitário, leciona Fundamentos do Direito e Direito Civil. Professor de cursos preparatórios para carreiras públicas, poeta, Especialista em Direito Processual Civil pela Escola Paulista da Magistratura e Chefe de Seção Judiciário no Egrégio Tribunal de Justiça de São Paulo.
